FRAGMENTOS
1- Se diminuir na escola o espaço da gramática, poderá aumentar automaticamente o do texto.
2- Para que o ensino mude, não basta remendar alguns aspectos. É necessário uma revolução.
3- O objetivo da escola é ensinar o português padrão ou talvez, mais exatamente, criar condições para que ele seja aprendido.
4- Parece razoável imaginar, como projeto, que a escola se proponha como objetivo que os alunos, aos 15 anos de vida e 8 de escola, escrevam, sem traumas, diversos tipos de texto: narrativas, textos argumentativos, textos informativos, atas, cartas de vários tipos, etc.
5- Uma das medidas para que esse grau de utilização efetiva da língua escrita possa ser atingido é escrever e ler constantemente, inclusive nas próprias aulas de português.
6- Os grandes problemas escolares estão no domínio do texto, não no da gramática.
7- Se diminuíssem os exercícios de repetição, sobrariam apenas coisas inteligentes para fazer na aula, como ler e escrever, discutir e reescrever, reler e reescrever mais, para escrever e ler de forma sempre mais sofisticada.
8- Haveria certamente muitas vantagens no ensino de português se a escola propusesse como padrão ideal de língua a ser atingido pelos alunos a escrita dos jornais ou dos textos científicos, ao invés de ter como modelo a literatura antiga.
9- Na escola, as práticas mais relevantes serão, portanto, escrever e ler.
10- Para se ter uma idéia do que significaria escrever como trabalho, basta que verifiquemos os escritores ou jornalistas. Eles não fazem redações. Eles pesquisam, vão à rua, ouvem os outros, leem, releem e depois reescrevem. Mostram para seus colegas e chefes, ouvem suas opiniões e depois reescrevem. A escola pode muito bem agir desta forma, desde que não pense só em listas de conteúdos e em avaliação.
11- Quando se discute ensino da língua, sugere-se que as aulas de gramática sejam abolidas, ou abolidas nas séries iniciais ou, pelo menos, que não sejam as únicas aulas existentes na escola.
12- Justificar o ensino da gramática por razões culturais significa, entre outras coisas, admitir que o ensino da gramática pode não ter nada a ver com o ensino da língua.
13- Há três maneiras de se entender a gramática: normativa, descritiva e internalizada.
Gramática normativa – conjunto de regras que devem ser seguidas. Aqui o que estiver fora da linguagem padrão é erro, vício de linguagem ou vulgarismo. A língua muda e a gramática normativa
continua propondo regras que os falantes não seguem mais.
Gramática descritiva – é tanto melhor quanto mais ela for capaz de explicitar o que os falantes sabem.
Gramática internalizada – conjunto de regras que o falante domina. Expressa aspectos dos conhecimentos lingüísticos dos falantes sem qualquer conotação valorativa.
14- O papel da escola não é o de ensinar uma variedade no lugar da outra, mas de criar condições para que os alunos aprendam também as variedades que não conhecem ou não têm familiaridade.
15- É um direito elementar do aluno ter acesso aos bens culturais da sociedade, e é bom não esquecer que para muitos esse acesso só é possível através do que lhes for ensinado nos poucos anos de escola.
16- A aceitação de que o objetivo prioritário da escola é permitir a aquisição da gramática internalizada compromete a escola com uma metodologia que passa pela exposição constante do aluno ao maior número possível de experiências lingüísticas na variedade padrão.
17- Portanto, prioridade absoluta para a leitura, para a escrita, a narrativa oral, o debate e todas as formas de interpretação(resumo, paráfrase, etc.)
18- Não se trata de excluir das tarefas da escola a reflexão sobre a linguagem, isto é, a descrição de sua estrutura ou a explicitação de suas regras, tarefas essas que estariam incluídas nas definições normativa e descritiva da gramática. Trata-se apenas de estabelecer prioridades, deixando claro que não faz sentido, dado o objetivo da escola, descrever ou tentar sistematizar algo de que não se tenha o domínio efetivo.
19- Antes de descrever a sintaxe e a morfologia das expressões, o professor deve certificar-se de que o aluno sabe usá-las e entendê-las.
20- Ensinar gramática é ensinar a língua em toda sua variedade de usos e ensinar regras é ensinar o domínio do uso.
21- A proposta consiste, então, em trabalhar na escola com essas três gramáticas, em ordem de prioridade inversa em relação à ordem de apresentação, isto é, privilegiando a gramática internalizada, em seguida, a descritiva e, por último, a normativa.
22- Assim, a escola deveria acreditar que a saída é ler muito, aumentar o repertório do aluno, suas possibilidades de contato com o mundo lingüístico que ele ainda não conhece, através de livros.
23- Eu sugeriria que se falasse em concordância, em verbo, em sujeito, em pronome, em plural, etc. sem que a terminologia fosse cobrada, de forma que, eventualmente, ela passasse a ser dominada como decorrência de seu uso ativo, e não através de listas e definições.
24- Aprender uma língua é aprender a dizer a mesma coisa de muitas formas.
25- Aqui o material prioritário é a produção lingüística do aluno, ao lado de uma pequena coleção de materiais de leitura.
26- Deve ter ficado claro nas entrelinhas que as sugestões se resumem a uma única grande idéia: fazer com que o ensino de português deixe de ser visto como a transmissão de conteúdos prontos, e passe a ser uma tarefa de construção de conhecimentos por parte dos alunos. Uma tarefa em que o professor deixa de ser a única fonte autorizada de informações, motivações e sanções. O ensino deveria subordinar-se à aprendizagem.
( SÍRIO POSSENTI)
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
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